ALGUNS POEMAS DO LIVRO AFECTOS                                                      Teresa Rita Lopes

         Os indesejados hóspedes

Com o tempo a gente habitua-se a conviver
com os seus desgostos
                                  Quando pela primeira
vez nos aparecem apanhamos um susto perdemos
o respirar o pé na vida
                                   Depois que remédio
aceitamos albergar esse fantasma sádico
que logo ao acordarmos nos poisa pesadamente
nos ombros e lembra “Cá estou eu”
                                                      Depois segue-nos
até à casa de banho e tira-nos a vontade de cantar
no duche
              Finalmente espreita-nos do fundo da chávena
de chá
           Com o passar do tempo vamos albergando vários
destes indesejados hóspedes
                                            Os mais antigos são mais
leves de peso mas têm a arte de nos obscurecer
a paisagem como vista através de um vidro sujo
                                                                          Alguns
vão e voltam e tornam a partir
                                               Outros instalam-se para
sempre nos sítios mais esconsos do nosso ser
                                                                      casa por eles
assombrada
                   E assim vamos vivendo em doce inimizade
                                                                                       Afinal
já fazem parte da família

 

 


Formiga com asas

 

                            1

Eras madrugadora
Mãe
Não te saí a ti
Sempre me foi difícil convencer o corpo
a acordar
a cavalgar suas pernas
ainda estremunhadas
a largar pelo dia fora
à rédea solta

Que podias esperar do teu novo dia
sempre igual aos outros?
E mesmo assim avançavas para ele
com ímpeto
como se o fosses amassar
no alguidar
ou assoar-lhe o ranho
ou dar-lhe banho

Ao acordar não perguntavas para quê
como eu
Acordavas
E saltavas da cama
sem hesitação
Que imperativo te empurrava para o dia?
Nunca tomaste tónicos
como eu
para abrir o apetite de viver

Foi esse o único presente que os deuses te deram
comer e viver com apetite
Exagero: também te deram
(enquanto te deram)
um corpo vigoroso
uma risada aberta
a graça e o gozo da palavra

 


2

Dizias-me sempre: perdes a melhor hora
do dia
o fresquinho da manhã
Tu nunca falhavas uma madrugada
Punhas o avental
arregaçavas as mangas
como se fosses amassar
e atiravas-te ao teu labor de formiga
- de formiga com asas

Será assim que voas
agora
na tua nova dimensão?

Só espero que aí haja madrugada para madrugares
e uma casa grande para lidares o dia inteiro
e um amplo alguidar para amassares o pão
e uma mesa comprida para sentares toda a família

Se o céu não for assim
não te merece


                As minhas tuas mãos

Olho para as minhas mãos
e súbito vejo as tuas
Agora que envelhecem
começam a ser tu
não propriamente nas feições
mas no olhar no sorriso
na presença

É verdade que as tuas foram bem mais castigadas
pela vida:
lavaram roupa antes das máquinas de lavar
a loiça antes dos detergentes
cozinharam em fogões antes de haver gás
amassaram o pão em alguidares de barro
estenderam-no em tabuleiros de madeira
fizeram queijo com flor de cardo
e ao mesmo tempo costura trabalhos de agulha
e bastidor
até de bilros
Nos dias de festa
matavam galinhas coelhos até cabritos
que mais ninguém tinha coragem de sacrificar
(mas eras tu a destemida sacerdotisa
tinha que ser)
Depois regalavam a família
com tachos e panelas fumegantes

Ao serão ainda tricotavam agasalhos
para pequenos e grandes
raramente para a própria dona

Hoje
as minhas mãos lembram-se
desses serões e madrugadas
como de uma perdida juventude

 


Camaleão no asfalto

Desde menina que me intrigas.
Foste o meu E.T. antes do filme.
Teus olhos omnipresentes rolando sobre si próprios
como astros
                  sem sequer mexeres a cabeça ou o corpo
tua búdica impassibilidade
                                          tua curiosidade desdenhosa
tua régia superioridade
                                    apesar das costelas à mostra
de menino esfomeado
                                 sempre me fascinaram e enojaram
ao mesmo tempo.
                          Por nada deste mundo te poria ao ombro
ou na palma da mão como já tenho visto fazer.
                                                                        Sempre te
admirei à distância
                              como aos deuses.
                                                          Agora aqui estás
no meio do asfalto
                            atravessando paulatinamente a estrada
indiferente aos carros a 100 à hora.
                                                       Desceste do pinhal
talvez simplesmente para mostrar que esta terra é tua
ou talvez te queiras suicidar porque este mundo já não
tem lugar para ti.
                         És símbolo de quê? Da tua minha terra
esquartejada pelos bárbaros da Internacional Finança
ou de mim
                neste mundo com máquinas a mais?
Já me tenho identificado com as gaivotas e sobretudo
com os maçaricos
                            a correr pela praia deserta pelo mar
adentro
            como se a terra e o mar fossem uma só coisa sua.
Hoje revejo-me em ti
                            pequeno dinossauro de trazer ao ombro
sereno e vagaroso
                            em teu desdém de deus ou de filósofo
exilado já da Natureza cada vez mais escassa
                                                                      desejoso
de regressar ao lar
                             de tornar a ficar da cor das suas folhas
de des-existir em seu regaço verde.

 


Monólogo da caixeira do supermercado

É noite. Regresso.
Aplicadamente
apanho dispersas
minhas mãos no chão
uma em cada canto.

Coloco-me as mãos
e olho em redor.
Mas não sei não vejo
meus olhos      Que é deles?
Tacteio no chão.

Debaixo da mesa
encontro-os escondidos
com medo encolhidos.
Coloco os meus olhos
e olho em redor.

Sinto-me melhor.
Debruço-me a ver
se vejo o nariz.
Que falta me faz!
Onde foi que o pus?

Meus seios? Perdi-os.
Pergunto por eles.
- Ninguém sabe os viu.
Cabelos? Tacteio
meu crânio sucinto.

Perdi os cabelos
ao longo do dia.
Aonde seria?
Pergunto por eles
ninguém me responde.

Digam por favor!
Meus ombros quem viu?
Descubro no chão
dois ombros dormindo
como um cão vadio.

Coloco meus ombros.
Procuro em redor:
onde se meteram
dois pés que trazia
quando aqui entrei?


Alguém atirou
meus dois pés pró lixo.
Revolvo o caixote:
encontro-os morrendo
tremendo de medo.

Coloco os meus pés.
Cadê as orelhas?
Cadê meu nariz?
Cadê os meus seios
as unhas pestanas?

Procuro em redor:
devem ter varrido
deitado pró lixo
devem ter caído
sem eu dar por isso.

Tenho tanto sono!
Bastam-me dois olhos
pra poder fechá-los
e um corpo a deitar
pra cima da cama.

Amanhã procuro
os seios pestanas
cabelos nariz.
Talvez amanhã
seja mais feliz.

Por hoje só quero
dormir onde estou
tapar-me depressa
com um cobertor
de lã pura noite.


                          Poesia de cada dia

poemas inéditos de Teresa Rita Lopes

 

Os meus versos
assim os quero:

                           um cestinho de figos
                            para presentear os amigos

 

ou a tigela de marmelada
que a minha Mãe oferecia
aos visitantes mais queridos


                          Mar Nosso

Emocionadamente
te reencontro
                      hoje
                              e
                       sempre
Mar nosso                 
que estás na terra
                     nesta minha
                     tua nossa
                     terra
e és sempre a mesma bênção
de água
a mesma mágoa
doce
        o mesmo indizível júbilo


                         Mar de Cacela

Cada mar tem seu rosto
                                      seu gosto
                                                     seu dorso próprio
Salvé! mar de Cacela! bem amado mar meu desde a infância!
Cavalgo desde então teu manso dorso azul
                                                                    às vezes bravo
de brancas crinas soltas
                                       Em teu amplo areal caminho
desde que me conheço
                                    até à linha do horizonte
até ao âmago de mim
                                   O mar da Caparica
                                                                 que também é meu
há muitos anos 
                         é mais atlântico mais macho:
                                                                       sua fria rudeza
liberta meu corpo da casca de seus desânimos e cansaços
e restitui-me
                    mais leve e livre
                                               ao ar
Mas tu és o meu mar natal
                                          Em ti me sinto regressada
ao seio de minha Mãe                     


                          No devido tempo

 

Minha velha nespereira que surpresa!
                                                            Perdoa
não te ter aliviado de teus galhos mortos!
Já não esperava que ainda desses frutos
                                                                Supunha-te
velha demais para a maternidade
                                                      E afinal ofereces-me
as mais gradas e as mais doces nêsperas da minha horta
Saboreio-as grata
                            cúmplice:
                                            também cá me vou
desentranhando em versos
                                     e outros escritos que acontecem
quem sabe no devido tempo
                                             como as tuas nêsperas


                          Jovem amoreira

 

Apanhar amoras da minha jovem amoreira e comê-las
logo
        besuntando a cara e as mãos
                                                      é regressar à infância
melhor: à puberdade
                                  ao assombro do sangue
Pela primeira vez a minha amoreira desentranhou-se
em frutos
               Cato-os escondidos nas folhas
                                                                tão preciosas
para os bichos da seda de eu-menina
                                                      Contemplo as mãos
ensanguentadas
                        e bendigo o crime que assim me faz feliz


                          A casa e a asa

 

Uma casa tem que ter telhado chaminé terraço
                                                                          regaço
agasalhar as pessoas como a galinha no choco
                                                                          Ah! o gozo
da tépida prisão do ovo!
                                       A ânsia de ser voo desgarrado
das telhas!
                 Uma casa para a asa querer fugir de lá
e apetecer o mar
                            ao longe
Uma casa para saber que somos raízes fundas
uma casa antiga
                          sábia de nascimentos e mortes
de pessoas e bichos
                                uma casa que abrigou o lume
de várias gerações
                              seus júbilos e seus lutos
os gemidos de amor e de dor de suas cópulas
partos agonias
                       Tudo isso ficou inscritos nestas paredes
grossas de cal
                      em sucessivas camadas geológicas
que adivinho
                     como um cego
                                          com as pontas maravilhadas
dos dedos
                  Uma casa
                                  esta
                                         par estar comigo
para o corpo gozar
                              reconciliado
                                                  seus limites
para perdoar ser pequeno
                                         para sofrer ser mortal

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