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CARTAS BD
O tempo, esse escultor de memórias,
Estas despedidas e partidas
Nos teus braços diluiríamos O tempo, esse escultor de memórias,
Estas despedidas e partidas
Nos teus braços diluiríamos
Mais um dia, ainda mais
A beleza é a última coisa que te revejo, Niagara esplêndido, desmaiado, único. Aromas, infindável esfinge, o outro lado do mistério de mim, ébrio com que te apeteço, a voz, os silêncios e as pausas, ao telefone, sou um rio sem nome em busca que me nomeies dedico-te um fragmento de mim, infinito o desejo da tua alma/pele/sonho
Já te escrevi o poema mais belo. Agora somente a espera que me resta na pressa da vertigem, antes que aconteça o silêncio ou o brilho desaparecido. Talvez seja melhor amar-te serenamente, sem ocultar a estranheza de uma loucura que me domina, e compreender a tua feição , entre vidro, papel e diamante. Mesmo esta vergonha de te amar, já é orgulho selecto.
As sílabas com que te pronuncio, gostava de as dizer em pedaços de ti, antropofagicamente.
É o mês de Fevereiro, lembras-te, o da espera longa? É o mês de todos os retiros, repousada que estás na água, ou não fosses tu terra, Deitas-te no azul e contemplo-te, intacta espero-te, aguardo-te, (des)esperançadamente. O mês passa, longamente inabitável, e eu não sei o que é esta gota de mim que me separa de ti, talvez essa permanência por terras lisboetas me faça sentir o quanto é tão pouco estar contigo. Volta sempre, volta depressa, não te esqueças que o amor necessita de alimento suave mas duradouro.
Volta para os meus braços
Adeus, sombra anunciada de um pássaro, entre frio e madrugada, Adeus, que continuo a esperar por mim em ti.
Sentir tudo excessivamente, até a margem da profunda viagem em ti, chegar aos lábios , oscilante sombra, cidade de um outro tempo, aquele em que te conheci. um cristal flutua no meu interior , e não sei desfazer-me de tal, onde terei abandonado a paixão ? talvez nos corredores desta casa, deste quarto, a tua estranheza, tristeza, e não sei como lhe abrir o território das sombras, noites por desvendar, e tantos poentes por começar.
Adeus ,minha concubina de mim, adeus, idade da inocência, filadélfia do meu olhar, o piano da existência, adeus, orlando em tudo orlandamente, adeus, pequeno buda do meu ser autêntico.
Os silêncios tão densos, a tua esmerada aproximação das margens, o regresso dos rios ao mar, o veludo da tua noite que não sai dos fragmentos do corpo, tudo me ecoa e me ressoa num oásis de pedra. O deserto tão perto, o ouro que já não me pertence, a voz da loucura nos nossos corpos de musgo, tudo me ronda na minha noite , e derramar-se-ão os frutos de uma outra memória tão nítida a espera. Ambrósia dos deuses, os teus lábios negros e visíveis ,são simulacros em colina, e a tua voz preenche os lugares abandonados do esquecimento. Limiar da fuga e a cumplicidade do abraço imutável. Deixa-me guardar para sempre a imitação dos sonhos, ou o excesso de tantas imagens que partiram dos cais.
Não havia sinais de espera, e assim te escrevo desta ilha de mim que me transporta àquele outro degrau de peninsularidade perdida. Não havia sinais de espera, senão na apetência de uma rigorosa sensatez de não dizer nada, de calar a imprecisão das coisas, de rarear aquela liquefacção de bichos e objectos. Não havia sinais de espera, e a espera parecia longa, tão doce como a framboesa tão diáfana como os deuses clássicos, e eu já me habituara a essa dor lenta, suavemente empolgante, e já não me continuava senão esperando. Não havia sinais de espera, senão na ausência com que te aguardava naquelas escadas entre o nada e o tudo, sequelas de jardins sem relva, leitos desfeitos, carpetes desalinhadas, a noite, a terra e a essência, a sonolência das mágoas, o rigor e a paz de que fala a bíblia. Não havia sinais de espera, tanta que era a fome de um dia não haver espera, mas a espera era afinal a consistência , e tudo o mais se diluía na aridez de uma saliva orgânica. Não havia a espera, e eu morria, de tanto esperar pela tua voz, que já não vinha, nem se habituava à minha. Não havia a espera. Não esperava. Regredia ao estádio inicial da matéria, era útero disforme, ou feto desfeito, devagar ía sorvendo os últimos dias da lembrança da espera . Se deus existe que me reduza a cinzas, porque sé na espera existo e pronuncio. Só na espera respiro. Deixa-me esperar um pouco ainda. Para que os fragmentos de mim, não estranhem a raridade .
Trabalho o olhar dos outros na tua expectância, e gostaria de te fruir num qualquer tempo flutuante, mágoa , talvez torrente, ou paisagem calma, odores, as algibeiras do mundo no teu peixe, o vendaval de ervas, as sombras, a morte, o sonho e eu fiquei de longe, tão de longe que me perdi na calmaria, e aguardei que me afogasses num pranto antigo, a que já me habituara com as tuas ausências. Adeus e eu fiquei. O deserto é já ali. Fora dos nossos corpos reside a fúria , fora de mim as trevas com que te invadi.
já não vou partir, porque a demora é longa e a terra húmida o sono com que te apeteço é a terra lodosa deste reconhecimento. já não parto, nesse lugar de desolação, onde o ofício da noite foi habitado em argila, já não parto, porque partir é morrer um pouco, quantos espelhos atravessarei para beijar a tua voz silenciosa e estranha? o meu ofício era partir, até conhecer a saliva profunda de teus olhos, de tua magoada boca, de teus braços molhados e quentes. mas atravessei a espera e já não parto, agora é-me impossível partir, e o silêncio é-me insuportável sem a avenida da tua noite. já não vou partir, e mesmo que parta, há-de ser de porto em porto, até te reencontrar, numa qualquer ilha, ou outra cidade, ou outro oceano, na cumplicidade de olhares envelhecidos pelo vento.
Podia acabar aqui, junto ao mar, prefiro continuar em ti, um dia disse-te: hoje, não mais vou esquecer a minha sede
Habito o mundo dentro de ti,
Habito num deserto,
Hoje comprei chocolates,
O cheiro da minha rua confunde-se com a transição
Os teus olhos verde tinta |
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