poesia

CARTAS BD
Cecília Barreira

 

SNOOPY

O tempo, esse escultor de memórias,
Tão lento e diverso como as esferas,
A morte e o sonho,

 

Estas despedidas e partidas
De que todos os dias
Somos rarefeitas,
Tão tristes que são,
Tão de lágrimas,
Tão de sorrisos escondidos,
De memórias

 

Nos teus braços diluiríamos
Esta forma de te conter
De te entranhar
De te penetrar
De te esmagar
De te magoar.
Nos teus braços uniríamos
E viveríamos
O regresso antecipado
De um qualquer ser
Estranho e longínquo.
Nos teus braços
Tanto que sofreríamos.

O tempo, esse escultor de memórias,
Tão lento e diverso como as esferas,
A morte e o sonho,

 

Estas despedidas e partidas
De que todos os dias
Somos rarefeitas,
Tão tristes que são,
Tão de lágrimas,
Tão de sorrisos escondidos,
De memórias

 

Nos teus braços diluiríamos
Esta forma de te conter
De te entranhar
De te penetrar
De te esmagar
De te magoar.
Nos teus braços uniríamos
E viveríamos
O regresso antecipado
De um qualquer ser
Estranho e longínquo.
Nos teus braços
Tanto que sofreríamos.

 


ADÈLE BLANC-SEC

Mais um dia, ainda mais
recordo-te sempre,
com os olhos cor de longe,
o sonho fugindo para trás,
o céu azul,
a estonteante rapidez
da espera,
as máquinas
das noites,
que se sucedem,
intactas.
Também já estás
habituado
a quem se digne a
morrer por glória,
falta a dor de
quem morre sozinho,
num canto do quarto
olhando no vazio,
os olhos
transparentes.
Mais um dia,
e ainda mais um,
rendo-me
ao sabor quente
da respiração
que ofereces,
longe,tão longe.

 

ASTÉRIX

A beleza é a última coisa que te revejo,

Niagara esplêndido, desmaiado, único.

Aromas, infindável esfinge,

o outro lado do mistério de mim,

ébrio com que te apeteço,

a voz, os silêncios e as pausas,

ao telefone,

sou um rio sem nome em busca que me nomeies

dedico-te um fragmento de mim,

infinito o desejo da tua alma/pele/sonho

 

FRANCIS ALBANY

Já te escrevi o poema mais belo.

Agora somente a espera que me resta

na pressa da vertigem,

antes que aconteça o silêncio

ou o brilho desaparecido.

Talvez seja melhor amar-te serenamente,

sem ocultar a estranheza de uma loucura que me domina,

e compreender a tua feição ,

entre vidro, papel e diamante.

Mesmo esta vergonha de te amar, já é orgulho selecto.

 

ALACK SINNER

As sílabas com que te pronuncio,

gostava de as dizer em pedaços de ti,

antropofagicamente.

 

KRAZY KAT

É o mês de Fevereiro, lembras-te, o da espera longa?

É o mês de todos os retiros, repousada que estás na água,

ou não fosses tu terra,

Deitas-te no azul e contemplo-te, intacta

espero-te, aguardo-te, (des)esperançadamente.

O mês passa, longamente inabitável,

e eu não sei o que é esta gota de mim

que me separa de ti,

talvez essa permanência por terras lisboetas

me faça sentir o quanto é tão pouco

estar contigo.

Volta sempre, volta depressa,

não te esqueças que o amor

necessita de alimento suave mas duradouro.

 

BIRD

Volta para os meus braços
que te amo com desespero
e volvidos
ainda encontro nos teus olhos
a luz acesa de uma paixão
inextinguível e linda.

 

ARSÈNE LUPIN

Adeus,

sombra anunciada de um pássaro,

entre frio e madrugada,

Adeus, que continuo a esperar por mim em ti.

 

CORTO MALTESE

Sentir tudo excessivamente,

até a margem da profunda viagem em ti,

chegar aos lábios ,

oscilante sombra, cidade de um outro tempo,

aquele em que te conheci.

um cristal flutua no meu interior ,

e não sei desfazer-me de tal,

onde terei abandonado a paixão ?

talvez nos corredores desta casa, deste quarto,

a tua estranheza, tristeza,

e não sei como lhe abrir o território das sombras,

noites por desvendar,

e tantos poentes por começar.

 

LOVERBOY

Adeus ,minha concubina de mim,

adeus, idade da inocência,

filadélfia do meu olhar,

o piano da existência,

adeus, orlando em tudo orlandamente,

adeus, pequeno buda do meu ser autêntico.

 

LUCKY LUKE

Os silêncios tão densos,

a tua esmerada aproximação das margens,

o regresso dos rios ao mar,

o veludo da tua noite que não sai dos fragmentos do corpo,

tudo me ecoa e me ressoa num oásis de pedra.

O deserto tão perto,

o ouro que já não me pertence,

a voz da loucura nos nossos corpos de musgo,

tudo me ronda na minha noite ,

e derramar-se-ão os frutos de uma outra memória

tão nítida a espera.

Ambrósia dos deuses, os teus lábios

negros e visíveis ,são simulacros em colina,

e a tua voz preenche os lugares abandonados do esquecimento.

Limiar da fuga

e a cumplicidade do abraço imutável.

Deixa-me guardar para sempre a imitação dos sonhos,

ou o excesso de tantas imagens que partiram dos cais.


TINTIN

Não havia sinais de espera,

e assim te escrevo desta ilha de mim

que me transporta àquele outro degrau

de peninsularidade perdida.

Não havia sinais de espera,

senão na apetência de uma rigorosa

sensatez de não dizer nada,

de calar a imprecisão das coisas,

de rarear aquela liquefacção

de bichos e objectos.

Não havia sinais de espera,

e a espera parecia longa,

tão doce como a framboesa

tão diáfana como os deuses clássicos,

e eu já me habituara a essa dor lenta,

suavemente empolgante,

e já não me continuava senão esperando.

Não havia sinais de espera,

senão na ausência com que te aguardava

naquelas escadas entre o nada e o tudo,

sequelas de jardins sem relva,

leitos desfeitos, carpetes desalinhadas,

a noite, a terra e a essência,

a sonolência das mágoas,

o rigor e a paz de que fala a bíblia.

Não havia sinais de espera,

tanta que era a fome de um dia não haver espera,

mas a espera era afinal a consistência ,

e tudo o mais se diluía na aridez de uma saliva orgânica.

Não havia a espera,

e eu morria,

de tanto esperar

pela tua voz,

que já não vinha, nem se habituava à minha.

Não havia a espera.

Não esperava. Regredia ao estádio inicial da matéria,

era útero disforme, ou feto desfeito,

devagar ía sorvendo os últimos dias da lembrança

da espera . Se deus existe que me reduza a cinzas,

porque sé na espera existo e pronuncio. Só na espera respiro.

Deixa-me esperar um pouco ainda. Para que os fragmentos de mim,

não estranhem a raridade .

 

BLAKE E MORTIMER

Trabalho o olhar dos outros na tua expectância,

e gostaria de te fruir num qualquer tempo flutuante,

mágoa , talvez torrente, ou paisagem calma,

odores, as algibeiras do mundo no teu peixe,

o vendaval de ervas,

as sombras, a morte, o sonho

e eu fiquei de longe,

tão de longe que me perdi na calmaria,

e aguardei que me afogasses num pranto antigo,

a que já me habituara com as tuas ausências.

Adeus e eu fiquei. O deserto é já ali.

Fora dos nossos corpos reside a fúria ,

fora de mim as trevas com que te invadi.

 

GARFIELD

já não vou partir, porque a demora é longa

e a terra húmida

o sono com que te apeteço é a terra lodosa

deste reconhecimento.

já não parto,

nesse lugar de desolação,

onde o ofício da noite

foi habitado em argila,

já não parto,

porque partir é morrer um pouco,

quantos espelhos atravessarei para beijar

a tua voz silenciosa e estranha?

o meu ofício era partir,

até conhecer a saliva profunda

de teus olhos, de tua magoada boca,

de teus braços molhados e quentes.

mas atravessei a espera e já não parto,

agora é-me impossível partir,

e o silêncio é-me insuportável

sem a avenida da tua noite.

já não vou partir,

e mesmo que parta,

há-de ser de porto em porto,

até te reencontrar,

numa qualquer ilha,

ou outra cidade, ou outro oceano,

na cumplicidade de olhares

envelhecidos pelo vento.

 

GIPSY

Podia acabar aqui, junto ao mar,
para que se saiba que ainda não morri
e que o sonho de ti envolve os barcos ,
levemente, na boca,
espreitando búzios,
quando as ilhas não pertencem ao mundo.

prefiro continuar em ti,
entre o abismo e o mundo,
esquecendo os acordes de canções tristes,
descerrando a saudade dos teus lábios,
(como poderei esquecer-te?)
abandonando as pedras lisas
e seguindo as lodosas e frias.

um dia disse-te:
- és livre de partir, de regressar,
de encontrar, de fugir.
agora sinto que os lábios do ser amado
são a única prece da minha existência
e um estremecimento acontece
quando penso na tua partida .

hoje, não mais vou esquecer a minha sede
que me queima a boca,
sede de te ver, ouvir, tocar, lembrar,
dizer, beber.
embranquecendo a tua pele,
apetece pensar em lírios ou em rosas
e dormir para sempre,
no chão de uma planície .

 

EVA

Habito o mundo dentro de ti,
e é dentro do teu mundo que me reuno à volta
habito o mundo para partir ao meio
e me situar na sonolência das linhas,
e ladear o sonho,
mas, por detrás daquela porta que me
estendes,
o que existe para além da fuga,
da virtude e da incoerência?
meu amor,
se és meu porque te anuncias
entre nascimento e morte,
num ciclo contra o qual me é dífícil
exaltar a minha chama?
o olhar do mundo repousa,
eu repouso nele,
e tu és a minha calma,
o deserto de onde jamais sairei,
para o qual tende o tudo e o nada.
meu amor de sangue lento,
reune-te em volta dos meus passos,
não te estendas na imensidão
vem,
trabalha as máscaras,
escolhe as pedras,
situa os dedos
na ponta dos meus
e procura a quietude dos rostos.

 

WOLVFRINE

Habito num deserto,
ao longe vens tu,
sempre ao longe tão perto,
habito num deserto,
e eu só quero o teu olhar,
como a luz num rosto de uma doçura antiga.
Habito num deserto,
a paisagem lenta,
o espreguiçar dos dias,
as noites sem fim,
O teu rosto fragmenta-se
em mil e uma noites
que nunca terei do teu lado,
habito no deserto,
já não sei para onde vou,
dá-me uma mão,
mesmo que seja para me
apontares que o horizonte
é nulo,
e a ausência se prolonga
em todas as coisas.
Dá-me a imagem do rosto amado,
e a mão ilusória-
(habito num deserto,
tão longe de ti, tão perto).

 

MAFALDA

Hoje comprei chocolates,
e dei por mim
a dizer disparates,
como amor, sonho, lua,abacates,
e dei por mim,
a dizer que depressa chegasses,
e dei por mim,
para que de ti de dentro me afagasses,
e jurei cantar uma canção
dessas com a ternura de muitas faces,
e dei por mim,
a cantar Puccini e a Madame Butterfly,
La Bohème e outras óperas escarlates,
dessas que põem a cabeça à volta,
e fazem de nós bonecos de bonifrates.
Hoje, mesmo à tarde,
entre a manhã e a noite,
comprei disparates,
para o meu amor único,
e foram muitos mais os dislates.
Comprei queijos e espumantes e tartes
e sonhos, e doces e estandartes,
e coisas, tantas, tantas, tantas
que me estendi na minha nuvem cor de rosa
e adormeci sonhando-te , afinal,
doida e lúcida,
entre múltiplos e concupiscentes... chocolates.

 

CALVIN E HOBBES

O cheiro da minha rua confunde-se com a transição
da chuva na metamorfose de dias de mistério,
Por isso a minha rua é uma antecâmara de alpendres,
fugaz aparência de um gesto,
Os passos que a embaraçam são rituais
que se repousam nos braços.
Moro naquela árvore defronte, moro no cansaço das cores
que se reclinam ,
moro além, na insinuação de memórias,
moro.

 

GASTON LAGAFFE

Os teus olhos verde tinta
A ambiguidade dos teus gestos
Daqui te recordo
Quinze anos passados de ti
Amor de um tempo antigo
Luz de uma interioridade
Que não morreu
Apesar de antiga
O teu nome ecoa
E transmite uma qualquer percepção
Do espaço interior
E de dimensões etéreas
Não te quero perder,
Nunca de nunca.

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